Pedagogia: processo de ensino-aprendizagem

Ao fazermos uma leitura mais apurada (racional) da poesia “O menino azul”, leitura esta que se deu como numa montagem de um quebra-cabeças, cujas peças estavam disponíveis, ora dentro do texto, ora fora dele – encontramos a figuratização de dois personagens presentes no processo ensino-aprendizagem e que são poeticamente cantados por Cecília: o menino e o burrinho. É centrado nestas duas figuras que iremos entender, não o que a autora quis dizer, mas o que ela disse, ou seja, entender o conteúdo ideológico presente em seu discurso que, na verdade, não é propriamente seu, mas do sistema social em que estava inserida.

O menino e o burrinho

O menino (que não sabe ler) do texto representa, em especial, todos os meninos que estão iniciando sua jornada de escolarização. Todavia, este menino idealizado e seus verdadeiros anseios contrariam as formas de escolarização praticadas em nosso país, embora haja vários programas governamentais e da iniciativa privada que visam reverter a triste realidade que há muito tempo contemplamos na formação educacional do povo brasileiro.

O burrinho, expressão de afetividade (afeto é um importante fundamento no exercício da verdadeira pedagogia) aponta para o amigo ideal que cada criança deseja encontrar no período da alfabetização – e o grande amigo que ela encontrará, nessa fase, será seu professor. É sim! Parece estranho, mas é a pura verdade. É um professor-burrinho que o aluno deseja ter nos primeiros anos de escola. Mais na frente, quando estiver “maduro”, ele certamente desejará “um cavalo puro-sangue”; “um quarto-de-milha”; um desses professores que têm nome e sobrenome, que fulguram na sociedade, e que sempre estão nos grandes e reconhecidos colégios e cursos de pré-vestibular. Entretanto, até chegar lá, é o burrinho que suprirá suas verdadeiras necessidades pedagógico-culturais.

Evidentemente que, no seu texto, Cecília brinca com o leitor usando um extraordinário jogo de imagens que possuem duas finalidades significativas: uma, divertir (as crianças, estimulando-as para a leitura), outra, alertar (os adultos); considerando que as crianças de hoje serão os adultos de amanhã, o que parece óbvio, mas não é, visto que muitos ensinamentos passados em nossas escolas se perderão no tempo, mais pelas estratégias utilizadas pelo professor do que pela qualidade desses conteúdos. Aquilo que deve ser ensinado nas escolas deverá ser para crianças que irão crescer, tornar-se adultos e enfrentar “um mundo largo e comprido”, cheio de armadilhas e de problemas. Sintetizando, “a educação tem que ser para a vida”.

É interessante ressaltar também que, ao escolher a figura de um burrinho, Cecília, como professora que foi, tenta romper com aquele ensino tradicional que foi se tornando, com o passar do tempo, obsoleto, devido às grandes transformações que ocorreram em nossa sociedade. Comparar o professor com um burrinho significa romper – e este rompimento é uma (re)ação que requer muita coragem e ousadia – com o posicionamento arcaico e extremista tomado pela tradição que não mais satisfazia aos anseios de uma sociedade em plena transformação. Significa destruir por completo os fundamentos de um sistema de ensino ultrapassado.

A partir deste entendimento, certa vez, em sala de aula, ousamos em nos transformar do quarto-de-milha que éramos (ou que pensávamos ser) num burrinho. Mudamos radicalmente nossas estratégias de ensino. Em nossas aulas de Língua Portuguesa reservamos um espaço para declamação de poesias, como também, um momento para a apreciação e cântico de música popular. Neste trabalho, que jogou para um canto da sala o uso das inúmeras e dolorosas regras gramaticais que nós (quarto-de-milha) sempre teimávamos em transmitir para os alunos, descobrimos como é bom ser um burrinho.

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