Questões a serem abordadas em relação a cultura brasileira

O filme O Sorriso de Mona Lisa aborda este traço de nossa cultura ao questionar, na figura de uma professora de artes plásticas, apaixonada pelo seu trabalho, a constituição de uma família como único meio de construção identitária das mulheres. O drama da professora, ao perceber que o casamento tinha como requisito o abandono de sua condição de profissional, coloca em relevo não somente a submissão das mulheres da época, ao aceitarem e legitimarem esta imposição, mas a valoração positiva e o caráter de dignidade que o trabalho assume na modernidade.

Apesar desta configuração social apresentada no filme datado dos anos de 1950, percebemos que, mesmo tendo ocorrido muitas mudanças na divisão sexual do trabalho, estas inquietações ainda se fazem presentes no cotidiano de muitas mulheres na atualidade, especialmente naquelas que escolheram a educação como profissão. Qual o espaço do trabalho na constituição identitária das professoras da atualidade? E quais sentidos e significados ele assume neste contexto?

Mulher e professora

Nas discussões em sala de aula com as alunas de cursos de licenciatura, problematizamos a divisão sexual do trabalho e a separação fordista ainda encontrada nesta divisão: aos homens cabe o trabalho gratificante e remunerado da rua e às mulheres o trabalho maçante, repetitivo (e não remunerado) da casa – o qual nossa sociedade nem reconhece como trabalho. No entanto o que chama a atenção em nossas discussões não são as queixas recorrentes acerca da permanência desta tradicional divisão do trabalho, mas os motivos apontados pelas alunas para buscarem fazer uma faculdade e serem professoras.

Em algumas turmas com as quais tive esta experiência de debate, me surpreendeu o fato de que para muitas futuras professoras a principal motivação para trabalharem fora era a de terem uma independência financeira. Escolheram, sim, a educação, mas o que as levou a buscar novas oportunidades de trabalho foi “não ter que pedir dinheiro para seus maridos”. Percebi também que o trabalho feminino muitas vezes é visto como uma necessidade. A mulher só adquire esta condição porque, frente ao desemprego estrutural e à flexibilidade do mundo do trabalho, o homem precisa da sua ajuda no sustento da casa.

Trabalho e identidade

Estes relatos nos trazem algumas reflexões sobre a condição feminina e o mundo do trabalho na atualidade. Inicialmente nos questionamos sobre a centralidade do trabalho na constituição de identidade dos sujeitos. Em uma sociedade de consumo, na qual somos o que adquirimos (e descartamos), o trabalho, enquanto condição que confere dignidade ao ser humano, parece perder espaço. Se na modernidade o trabalho dignificava a pessoa, hoje seria o consumo que assume este papel?

Neste contexto, o trabalho volta a ser concebido como um fardo necessário para inclusão em uma sociedade de consumo? Esta negação do trabalho como algo prazeroso, que confere identidade ao sujeito, parece estar mais presente no universo feminino. Será que a constituição da identidade feminina se centra ainda com tanta força na condição de esposa e mãe que a mulher acaba concebendo o trabalho como uma simples necessidade? Quantas vezes nos pegamos dizendo aos nossos filhos ao sairmos de casa: “A mamãe precisa trabalhar. Mas já volta pra ficar contigo”? Neste tipo de discurso a representação do trabalho como algo negativo já está sendo, então, perpetuada para as futuras gerações. Não deveríamos dizer: “Vou trabalhar porque gosto, porque me sinto produtora, porque isso também me faz feliz”?

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